Lembra do tatuado na testa? Veja como esta agora

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Não tenho vergonha de mim’, diz jovem tatuado na testa após 4 meses de internação
Crime aconteceu em 9 junho deste ano. Juíza ainda não decidiu futuro dos agressores, que estão presos.
Por Glauco Araújo, G1 SP
07/10/2017 06h01 Atualizado há 4 horas
“Eu não tenho vergonha de mim, eu não vou ter vergonha de mim”, diz jovem tatuado na testa

Internado desde 13 de junho em uma clínica para tratamento contra o vício de crack e álcool, na Grande São Paulo, o adolescente de 17 anos que teve a testa tatuada por dois homens em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, disse que vive um dia por vez e que perdoa os responsáveis pela marca que ainda carrega em sua pele com a frase “eu sou ladrão e vacilão”. Ele recebeu o G1 para uma entrevista exclusiva.
“Estou aprendendo a viver. A gente tem de viver um dia de cada vez. Já sei o que posso fazer da minha vida: estudar, trabalhar e viver a vida como cidadão. Hoje sei o limite das coisas. Droga derrotou muito a minha vida e a da minha família. Não quero mais, não tenho mais vontade de usar, só quero ficar limpo e andar para frente”, disse ele.
Os responsáveis pela inscrição na pele do adolescente são o tatuador Maycon Wesley Carvalho dos Reis, 27 anos, e o vizinho Ronildo Moreira de Araújo, 29 anos. Em 12 de setembro, a audiência de instrução para julgá-los foi realizada. A dupla segue presa até a decisão da Justiça.
Adolescente tatuado na testa passou por três sessões para retirada da tatuagem. Veja a evolução (Foto: Glauco Araújo/G1) Adolescente tatuado na testa passou por três sessões para retirada da tatuagem. Veja a evolução (Foto: Glauco Araújo/G1)
Adolescente tatuado na testa passou por três sessões para retirada da tatuagem. Veja a evolução (Foto: Glauco Araújo/G1)
Jovem tatuado na testa espera poder sair da clínica para estudar e trabalhar após tratamento de desintoxicação (Foto: Glauco Araújo/G1) Jovem tatuado na testa espera poder sair da clínica para estudar e trabalhar após tratamento de desintoxicação (Foto: Glauco Araújo/G1)
Jovem tatuado na testa espera poder sair da clínica para estudar e trabalhar após tratamento de desintoxicação (Foto: Glauco Araújo/G1)

Tratamento
O menino passa 24 horas na clínica Grand House, em Mairiporã, onde é feito o tratamento, gratuito. A rotina para concretizar o sonho de estudar e trabalhar passa por uma programação de atividades, que incluem atendimento psiquiátrico e psicológico, de convivência social e atividades lúdicas e esportivas. O local tem academia, campo de futebol, lago, jardim, piscina, a galinha “Fênix” e o cachorro “Snoopy”, que são os mascotes da clínica.
“Depois que aconteceu aquele fato comigo eu entendi que não posso mais viver no mundo das drogas. Tenho que colocar na minha cabeça que sou uma pessoa que tem pai, mãe, que nunca me deixaram de lado”, disse o garoto.
Adolescente caminha na clínica Grand House, onde se recuperada do vício do crack e do álcool (Foto: Glauco Araújo/G1) Adolescente caminha na clínica Grand House, onde se recuperada do vício do crack e do álcool (Foto: Glauco Araújo/G1)
Adolescente caminha na clínica Grand House, onde se recuperada do vício do crack e do álcool (Foto: Glauco Araújo/G1)

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Recuperação
“Eu sou uma pessoa que crê muito em Deus, sei que é minha última chance para eu ficar limpo. Minha mente está aberta, ela estava fechada, não queria ouvir ninguém, não queria escutar ninguém, eu queria ser meu próprio Deus. Coloquei um objetivo na minha vida: crescer, fazer uma escola, um trabalho, e ser digno, honesto”, afirmou ele.
O jovem relembrou a manhã daquele 9 de junho, quando foi dominado pelos dois rapazes e teve a testa tatuada. “Aquele dia eu estava com problema, estava alcoolizado e defini para mim pegar o que não é meu e acabei fazendo coisa errada. Hoje eu tenho na minha mente que não posso fazer isso, se eu quiser alguma coisa eu tenho de trabalhar e conquistar. Eu quero ser engenheiro ou trabalhar com informática.”
“A Justiça já está feita, eu também errei, mas os dois erraram, deixo na mão da Justiça. Penso mais na minha recuperação, né. Quero ser um bom filho, um pai de família, um bom irmão. Eu perdoo, do fundo do coração eu perdoo. A única coisa que eles fizeram foi justiça com as próprias mãos, mas a Justiça já foi feita”, disse o adolescente.
Adolescente conversa com a psicóloga Marcela Abrahao da Silveira (Foto: Glauco Araújo/G1) Adolescente conversa com a psicóloga Marcela Abrahao da Silveira (Foto: Glauco Araújo/G1)
Adolescente conversa com a psicóloga Marcela Abrahao da Silveira (Foto: Glauco Araújo/G1)
Diante do espelho
O adolescente passou pela terceira sessão para retirada da tatuagem da testa nesta semana. Ele está confiante no tratamento e espera um dia olhar no espelho e não ver mais a inscrição tatuada. “Assim, quando me olho no espelho, eu consigo me olhar no espelho e não vejo uma pessoa má, sou uma pessoa do bem que está se transformando. Hoje em dia eu consigo olhar no espelho. Eu não tenho vergonha de mim, eu não vou ter vergonha de mim.”
“Às vezes eu não me olho no espelho. Tem vezes que eu fico assim: poxa, não saiu ainda. Mas o tratamento está sendo feito. Olhar no espelho eu consigo, mais do que antes, porque antes eu não olhava, antes eu não conseguia olhar, quando olhava para mim não conseguia me identificar, não sabia quem era eu, hoje eu consigo ver quem sou eu”, disse ele.
Adolescente está internado desde 13 de junho em uma clínica em Mairiporã (Foto: Glauco Araújo/G1) Adolescente está internado desde 13 de junho em uma clínica em Mairiporã (Foto: Glauco Araújo/G1)
Adolescente está internado desde 13 de junho em uma clínica em Mairiporã (Foto: Glauco Araújo/G1)
Primeiro passo
A psicóloga Marcela Abrahao da Silveira, coordenadora da Clínica Grand House, disse que o adolescente se adaptou bem ao tratamento de desintoxicação. “Nós temos a questão do primeiro passo, porque a doença é biopsicossocial, física, mental, espiritual e comportamental. O que designa esse primeiro passo é o paciente ter consciência de que é impotente e de que a vida estava incontrolável.”
Segundo ela, o paciente precisa entender que a realidade em que estava vivendo, sob efeito das drogas e a atual são distintas. “É o primeiro passo para de fato ele começar a entrar em recuperação, a entrar com a realidade dele, que é essa realidade da perda de controle, a ingovernabilidade e aceitação. Muitas vezes o paciente recém chegado não compreende isso. É preciso aceitar as derrotas de cabeça erguida para poder alcançar as vitórias e assim seguir em frente.”

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